Como Cozinhar

“Para pôr uma pessoa a escrever”, ensina o português Miguel Esteves Cardoso, “basta apresentá-la a ela própria. Basta dizer: Maria José, apresento a Maria José: acho que vão gostar muito de se conhecer. Agora conversem. Agora vejam o que têm para dizer. Escrevendo.”

Para pôr-se a cozinhar, perceba: o conselho também se aplica. Porque ao apertar o avental na cintura, afrouxam-se os nós da mente e dos músculos, a alma, sem amarras, volta pro corpo, a pessoa se coloca no estado mais raro e precioso que há: o de atenção no aqui e agora. 

Uma atenção física, por supuesto, para não lascar a unha na lâmina do ralador ou chamuscar os pelinhos do antebraço, por desconcentração. Também para não desossar sem querer o próprio indicador ou derrubar lava em forma de café e correr para o hospital com pano de prato molhado enrolando a mão, quando a distração vira devaneio (conhecimento de causa aqui). 

E também uma atenção de alma, como a que a gente empenha quando visita a tia mais estimadinha na quarta-feira à tarde só porque deu saudade e, por alguns minutos, só existem você, ela, a chuva, a bengala nova e a violeta que brotou. 

Cozinhar é uma conversa consigo que pode ir para qualquer lugar. Pode começar devagarzinho, no porto seguro do que sempre tem na geladeira, no arroz-com-feijão, no ovo mexido ou no guisadinho de chuchu. Não precisa, mas também pode acontecer de descambar para um papo mais complexo, como uma receita do Ottolenghi com trocentos ingredientes, ou uma confabulação cheia de camadas e reviravoltas, feito bolo de casamento. Tudo depende do que se tem a dizer. 

Todo mundo tem o que dizer para a pessoa que mais conhece e, ao mesmo tempo, sobre quem mais há a desvendar. Pode botar reparo. Se pá, ao puxar esse fio de prosa feito o espaguete da Dama e o Vagabundo, a gente se descobre uma pessoa apaixonante.

Tenho para mim que vocês vão gostar muito de se conhecer. Agora conversem. Agora vejam o que têm a dizer. Cozinhando.


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