Como Ficar Contente com um Amor Vegetal

Acho que foi no Chucrute com Salsicha que li pela primeira vez sobre minha escritora de comida favorita, a M.F.K. Fisher. Se não foi, ficará sendo, pois toda vez que leio algo sobre ela, é da Fer que me lembro.

Fisher fala de amor e de comida, da mistura dos dois e de suas implicações. Concordo com muitas das visões dela sobre esses assuntos e chego a reler diversas vezes o mesmo parágrafo, ora rindo e balançando a cabeça, ora com o coração apertado e ao mesmo tempo egoisticamente agradecido por não ter vivido em tempos de guerra.

E foi justamente em plena crise da guerra que ela produziu sua primeira obra: “Como Cozinhar um Lobo”, um tratado sobre como matar a fome em tempos de escassez.

Há um capítulo inteiro dedicado às hortaliças, donde extraio uma frase que ressoa há semanas em minha cabeça:

“Todas elas, macias ou duras, de casca grossa ou fina, morrem quando são descascadas… tal como você e eu.”

É isso! Elas morrem se perderem sua pele, sua proteção, sua interface com o lado de fora. Ficam desnudas e vulneráveis, à mercê do tempo que oxida e faz perder sabor. Por isso a autora recomenda cozê-las com casca, sempre que possível.

Já experimentou colocar um pedaço de batata doce, um de chuchu e um de abóbora, com casca e tudo, para cozinhar junto com o feijão? A mãe faz isso até hoje e meu pedaço preferido é justamente aquele que fica no limite entre o vegetal e o mundo.

Acho que aquela película concentra todos os sabores e histórias, a proteção reconfortante e a sabedoria da terra. Arrisco até dizer que certos legumes escondem na casca seu quinhão de amor.

Um amor à flor da pele, como aquele filme de paixão contida e não consumada, segredos dentro de árvores e cascas imaculadas. Uma história de amor tão forte e ao mesmo tempo tão frágil que ninguém quis arriscar despelar-se das roupas para não deixá-la morrer.

O filme,  acabei de descobrir, já saiu no Brasil em DVD e foi direto para minha crescente lista de desejos. Além de me deleitar com a fotografia, o roteiro, a beleza dos atores e a música, tenho vontade de rever, agora com olhos de Dadivosa, o arroz japonês, as garrafas térmicas cheias de talharim… será que havia algum vegetal naquele jantar dos dois?

E o livro “Como Cozinhar um Lobo”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 1998, tem a consultoria editorial impecável da Nina Horta e está disponível aqui.

.*.

Cinara e Katita fizeram belas resenhas sobre outro livro da M.F.K. Fisher: “Um Alfabeto para Gourmets”.



21 comentários em “Como Ficar Contente com um Amor Vegetal

  1. Cinara

    Dadi, simplesmente adoro posts sobre livros, e este seu está especial, amiga… “Como Cozinhar um Lobo” será minha próxima aquisição da Fisher, com certeza! Ainda não terminei “Um Alfabeto para Gourmets” pois, como você, fico literalmente saboreando cada crônica, lendo e relendo cada uma delas com crescente admiração… Uma obra imperdível. Beijos!

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  2. Fer Guimaraes Rosa

    Querida Fê!

    Este eh um texto tao bem escrito e emocionante e que me tocou profundamente, como nunca tinha acontecido antes. Voce descreve exatamente a maneira como nós lemos essas mulheres que nos ensinam e inspiram tanto. Sou assim como voce, paro pra pensar, balanco a cabeca, concordo, dou risada, volto e releio, marco a página com uma dobradinha discreta ou com um pos-it escandaloso. Eh uma delicia! Petulantemente vou ousar dizer aqui o quando eu me reconheco na Fisher – como tambem me reconheco na grandona desengoncada da Child, ou na paixao mediterranea revolucionaria da David. Mas na Fisher eu vejo o prazer enorme de escrever, a sede pela historia, pela informacao, tanto quando o amor dela pela comida. Ouso ate sugerir que ela nao era assim tao boa cozinheira, mas apreciava a boa mesa, as boas historias e colocar tudo o que via e sentia no papel. Pra mim ela mostra que podemos ser tudo o que quisermos, nao precisamos seguir nenhuma regra, nenhuma moda, entrar em nenhuma caixinha. Me inspiro nessas mulheres e tento ser o que eu sou, o que ja esta bom da conta! 🙂

    Tenho o pressentimento que How To Cook a Wolf vai acabar virarndouma biblia da sobrevivencia com classe, inteligencia e humor, em razao do horizonte acinzentado que tenho visto no futuro da humanidade. Minha mae tambem advogava o consumo das cascas, mas com o advento da paranoia dos agrotoxicos tudo isso ficou no passado. Hoje talvez possamos recobrar essa ideia e aplica-la no noss dia-a-dia, nao?

    Com certeza que havia legumes nas garrafinhas termicas de In The Mood for Love! Nao ha amor maior do que o uma tigela cheia de sopa quente quente com legumes e macarrao!

    Super beijo,

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  3. Dadivosa

    Agda, a M.F.K. Fisher é uma mulher admirável, com texto belíssimo e uma visão de mundo que me encanta por demais. Acho que você vai gostar.

    Cinara, eu não gosto de ler livros traduzidos, mas esse foi tão bem cuidado, tem uma tradução tão preciosa que dá gosto, né? Também pretendo aumentar minha coleção em breve, aí te conto tudo 🙂

    Fer, sem medo de transformar esse espaço numa rasgação de seda, você me lembra todas essas três mulheres poderosas, sim senhora. Acho que gostamos delas pelos mesmos motivos. Também suspeito que, assim como eu, a Fisher não era uma supercozinheira, que se deliciava com o processo e não fazia questão de ser perfeita (que bom, né?). Obrigada, Fer, por me apresentar essa leitura tão deliciosa e profunda! (e agora quem está super emocionada sou eu)

    ;***

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  4. Neile

    Dadi, há dias queria lhe escrever…pra lhe contar algo que aconteceu…por estas sincronicidades da vida, só pude vir hoje, quando sou brindada com mais esta pérola de sensibilidade sua e por decorrencia da Fer…Obrigada por me apresentar mais esta chance de mergulhar no Feminino e na Alma do Mundo…
    Mas, vim lhe agradecer pelo labane…Faz tempo faço meu próprio iogurte como voce, acompanhei sua história com o queijo dos beduínos e lendo o livro da Cris e da Tatu fiquei com vontade. Marido ama. Vou fazer, pensei…mas, antes, vou me insipirar mais ainda. Voltei ao seu post sobre o assunto. Fiz tudo certim e na hora de deixa-lo escorrendo, escolhi um tecido que já foi de minha amada Vó Maria..dava certim…ai, Dadi..me emocionei com o processo, com aquele líquido transparente e principalmente com resultado, com o cheiro, a cor, a consistencia, o sabor..que coisa linda o labane quando é descoberto, quando os panos se abrem e ele surge… Nunca uma comida me emocionou tanto, confesso..fui tocada..e mais, o tecido, nao ficou sujo, nao ficou com cheiro azedo…ele…ele tinha o cheiro de minha avó..suave, doce…nós estávamos juntas de novo e fiquei inundada de Amor.
    Obrigada.

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  5. miki w.

    dadi, adorei o teu post (como sempre!). não conhecia a Fisher, fiquei bastante interessada.

    vc assistiu a 2046 também, do mesmo Wong Kar-Wai e uma espécie de continuação descontinuada do Amor à Flor da Pele? é tão maravilhoso……

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  6. Cinara

    Dadi, como você, também prefiro ler os livros no original em inglês, se possível. Mas neste caso, eu concordo com você. A tradução está passando todo o sentimento do texto original, o que é algo raro. Sem querer ser presunçosa, acho que posso opininar sobre o assunto, pois sou tradutora! ;o)
    Beijinhos…

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  7. Tania Lampe

    Dadi
    Emoção,curiosidade,carinho,é o que sempre encontro por aqui!Voce nos remete à sentimentos bons,onde compartilhar é receber cada vez mais. Graças ao “Chucrute com Salsicha” te encontrei.Obrigada a Fer tambem.Énfim que bom beber desse copinho!!! beijos.

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  8. Dadivosa

    Neile, que história mais doce e linda! Entendo exatamente o que você sentiu e espero que aconteça muitas vezes e que você possa nos contar e nos inspirar também!

    Silvia, suspeito que você também vai se apaixonar por ela.

    Miki-rida, eu ainda não vi. É uma pena que o tenha perdido no cinema, mas confesso que fiquei com um certo medo de não gostar da semi-continuação. Agora que você falou, crio mais coragem 🙂

    Cinara, é verdade! Sabe que depois que escrevi me lembrei desse detalhe?

    Tania, obrigada pelas palavras tão queridas!

    ;***

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  9. Dauro

    Legal te ler, sempre. Sobre as cascas, penso sempre nisso quando tou na cozinha. E termino muitas vezes adotando o mal menor, que é me livrar delas em alguns legumes – infelizmente nem sempre posso comprar orgânicos – pra evitar excesso de agrotóxicos.

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  10. Maria Helena

    Dadi, elogiar seus escritos seria “chover no molhado”, então, repito o que diswse ontem: você nos inspira. E com esse post de hoje, principalmente, inspira a vontade de ler, coisa que eu amo de paixão e tento também fazer – inspirar meus alunos.
    Essa autora em especial ainda não li, mas com você, a Fer, e a Cinara como lobbystas, com certeza lerei logo !!

    beijocas.

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  11. Dadivosa

    Idem, Dauro. Sou sua fã, você já sabe. Quanto às cascas, e sua horta, como vai?

    Maria Helena, também adoro ler. E quando o livro é bom, a gente só pode agradecer ao autor (e/ou à família dele) recomendando aos amigos, né?

    ;***

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  12. miki w.

    Dadi, acho que eu também teria esse receio. Mas, como ainda não assisti Amor à Flor da Pele… Quero muito assistir e reassistir 2046. Um amigo cinéfilo que assistiu aos dois, gostou, não ficou decepcionado não. Mas talvez ele tenha uma leve preferência pelo “Amor…”, agora não me lembro bem.

    beijinhos, miki

    ah! outro dia fiz o seu tartar de abacate. menina, q coisa deliciosa!!!

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  13. Lunalestrie

    Dadi, que gostoso seu post e os comentários de todas, amei.
    Essa semana recebi os dois livros dela que você citou – justamente pela dica da Cinara, que foi um pontapé final, já que fazia tempo que queria comprá-los. Estou aqui com eles do lado, esperando a hora em que serão devorados… Beijinho.

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  14. Katita

    Querida Dadi,

    Acho que já falei tudo sobre a MFK Fisher lá na minha cozinha. Essa é uma daquelas mulheres que só nasce de geração em geração.

    Mas mudando de pau pra cacete, comadre, me manda o endereço novo então… fiz o favorzinho pra mim mmesma de apagar sem querer a minha pasta de e-mails do Rainhas, mas o grande dia é 16 de fevereiro, é isso?

    =))))

    Beijim,
    K.

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  15. Ana

    Dadi,

    MFK Fisher está na minha lista de Objetos do Desejo desde que conheci esse maravilhoso mundo dos blogs culinários, ao qual tive o prazer de me ligar. Ando louca atrás de Um Alfabeto para Gourmets, mas em todo lugar está esgotado… :0( Vou continuar procurando, mas já já vou atrás dessa sua nova indicação!

    beijo,

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  16. Lara

    Oi, mulher! Desculpe o atraso, mas tenho de comentar. Vi o programa do querido titio Ronnie (fofo) e achei muito legal. Fiquei triste porque perdi o começo e não vi ele apresentando vcs. Adorei seu cabelo!!! Fantástico. Parabéns e sucesso. Grande abraço.

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  17. Pingback: Dadivosa » Papelote de Vegetais com Segredo

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