Que me desculpe o tudo por não estar em toda parte

Ela sente o desabraço do mundo.

Evita ler acontecências (notícia boa não é notícia, dizem).

Atravessa na faixa, coloca seis strelítzias no vaso de plástico, põe-se a preparar um gazpacho.

De avental apertado na cintura é dona e proprietária de cada ínfimo acontecimento do ninho, protegida de um lá fora que arde em juízo, sombra e tirania.

Porque avental é guarida.

E fazer comida sempre, sempre, sempre será restauro.

Por isso, feito Zymborska, pede desculpas ao tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo, ao amor antigo por sentir o novo como primeiro e às guerras distantes por trazer flores para casa.

 

Sob uma estrela pequenina

Wisława Szymborska

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.

Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.

Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.

Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.

Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.

Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.

Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.

Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.

Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.

Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.

Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.

Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.

E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,

fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,

me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.

Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.

Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.

Verdade, não me dê excessiva atenção.

Seriedade, me mostre magnanimidade.

Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.

Não me acuse, alma, por tê-la raramente.

Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.

Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.

Sei que, enquanto viver, nada me justifica

já que barro o caminho para mim mesma.

Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,

e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.



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