Quem sai aos seus não degenera!

Vagem Ensopadinha

Um dia ainda hei de ter a pachorra de listar as façanhas culinárias de maman. Algumas não são lá muito gloriosas, como a fuzarca de louças, panelas, facas, talheres e cascas que fica a pia ao término da cozinhança, o caos organizado da geladeira ou aquela história do caldo de peixe sem peixe que volta e meia o tio reconta.

Mas a mãe tem assim um jeito de cozinhar inimitável e delicioso, com pratos e proezas de se tirar o chapéu, como a habilidade para preparar uma jantinha urgente em poucos minutos para marido, filhos, genros, noras, neto, irmão, agregados e quem calhar de aparecer de última hora, o amor de cada bolo de laranja batido à mão pro café da tarde, o carinho disfarçado nas camadas da lasanha, a sabedoria em forma de molho escurinho da galinha caipira em panela de ferro, o bife à milanesa, as ceias de natal, o amendoim açucarado da páscoa, o ovo frito, as verdurinhas…

Ah, essas verdurinhas! Dentre as coisas mais lindas que a mãe faz está a mania gostosa de incluir, em todo almoço e jantar, uma salada bem sortida e pelo menos um vegetal cozido, assado, recheado ou refogado que vai, fumegante, ornar a mesa e completar a refeição.

Da salada de beterraba à abobrinha de forno, do repolho com areia ao pimentão com shoyu, da batata-doce caramelada ao espinafre abafadinho, da ervilha-torta à berinjela empanada, do chuchu-cheio ao aipim com bacon, meus preferidos mudam ao sabor do vento. Em comum, todos despertam a vontade de estar e cozinhar com ela.

Essas verdurinhas têm, portanto, uma carga extra de afeto e conforto de colo de mãe, uma mania compartilhada entre nós duas, tal e qual aquele baguncê que fica na pia. Porque, como ela responde com uma risadinha toda vez que o marido reclama da balbúrdia que faço até pra fritar um ovo… “Quem sai aos seus não degenera!”. 🙂

A receita a seguir é das mais simples e mais gostosas do repertório de maman. Fiz questão de interromper sua soneca dominical para checar a receita por telefone e fazer uma vagem ensopadinha que ficasse igual à dela. Sem modéstia, ficou!

Ingredientes:

  • 2 colheres de sopa de óleo (canola, soja ou girassol)
  • 1/2 xícara de cebola picada miudinha
  • 1 colher de sopa cheia de massa (extrato) de tomate
  • 3 xícaras de vagem limpa, sem as pontas nem fiapos, cortada em rodelinhas de mais ou menos 0,5 cm
  • 1 xícara de água
  • sal a gosto

Como fazer:
1. Refogue a cebola no óleo com uma pitada de sal só até murchar.
2. Adiciona e massa de tomate, dê uma mexidinha, junte a vagem e a água.
3. Cubra a panela e deixe cozinhar. A água vai secar um pouco e o molho vai encorpar um tantinho, sem ofuscar a estrela-vagem.
4. Acerte o sal e sirva, ainda com fumacinha.



16 comentários em “Quem sai aos seus não degenera!

  1. Bárbara

    Sabe que ao ler seu precioso texto parecia que você estava vendo uma descrição da minha mãe?? rs… exceto pelas cascas na pia…rsrs… será devido ao local de origem de ambas (região sul, suponho)?
    Beijinho!

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  2. Dadivosa

    Bárbara, suspeito que deve ser algo mais característico de amor de mães do que propriamente de um lugar… e cascas na pia eu não deixo mais, não. Dizem que até pokémon evolui, né? 😉
    Um beijo

    Responder
  3. Odete

    Menina, que texto lindo. Tambem senti como se voce descresse minha mae tambem. Bom saber que existem tantas mamaes igualmente fofas e queridas. Bateu uma saudade tao boa. E a receitinha e mesmo danada de boa. Sua mae esta certissima, nao se degenera mesmo!
    Beijo pra voce e pra sua mamae tambem.

    Responder
  4. clau

    Ola!
    Costumo passar por aqui de vez em qdo.
    Ler vc falar de sua mae, me deu é mais saudade da minha, que esta ai em SP e com quem eu falo pelo menos meia hora, todos os dias, para esquecer a distancia que nos separa…!
    E ela tb faz uma vagem de metro bem assim como a da sua mae. a unica diferença é que nao usa o tomate.
    Mas… é SEMPRE boa igual!
    Bjs!

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  5. Manu

    Oi, Dadi!

    Adoro quando você descreve as suas lembranças de família, vejo muita coisa parecida!

    Comida de mãe não tem igual… o tempero é, exatamente, a carga afetiva!

    Bjoooo

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  6. Ziza

    Minha mãe já se foi e é na cozinha que a sinto por perto, tentando encontrar o sabor que ela deixava em cada uma daquelas especialidades…
    Beijos,
    Ziza

    Responder
  7. Dadivosa

    Michel, Odete, Clau, Leandro, Manu e Ziza
    Fico contente de saber que lembraram de suas mamães 🙂

    Silvia, eu bem sei que você também tem esse “amor vegetal”, saudade de você!

    Valentina, e eu com saudades de você!!! Dessa vez não deu pra gente se encontrar, né? Um beijo grande e boa(s) viagem(ns) 😉

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  8. Glaucia Maria Gripp

    Querida, amo seus textos (memórias) e me faz voltar no tempo… quantas
    saudades…! não economize em contar “seus causos”, que são parecidos
    com os de tantos de nós…!

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  9. Ana Rosa

    Olá, minha mãe tb tem as invenções dela. Ela refoga verdurinhas (espinafre, repolho, ou escarola), depois daquela “abafada”, quebra tantos ovos quantos forem os comensais, um salzinho para os ovos, desliga o fogo e deixa os ovos cozerem no bafo. Hummm experimente e depois me conte.
    bjs
    ANA ROSA

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  10. Claudia

    Ai que delícia de texto. A minha mãe era assim, sempre tinha verduras cruas( saladas) e uma verdura ou legume refogado em todas as refeições além do arroz e feijão e a carne. Hoje com todas filhas casadas e viúva, ela está em outra fase, curte mais comer fora e sair com as amigas, o que dou maior apoio, pois se dedicou muito a todos nós. Mas muitas vezes me vejo fazendo as mesmas coisas que ela, só não sabia o quanto dava trabalho fazer uma refeição completa dessas…!

    bjs

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  11. Lisandra

    Encontrei teu blog hj, por acaso, e amei demais…
    Quem dera eu tivesse o dom das palavras, como tu tens. Lendo teus posts, lembrei de tantas coisas “de mãe”… não foi uma a vez em que liguei pra ela, que mora longe, perguntando de receitas e segredos. Delícias de palavras e sentimentos compartilhados.
    Que isso que fazes aqui, sirva de inspiração a muitos!
    Sucesso e parabéns!!!

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